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Nem tudo é diagnóstico. Nem todo sofrimento precisa de remédio.

05 de junho de 20266 min de leitura
Nem tudo é diagnóstico. Nem todo sofrimento precisa de remédio.

Diagnóstico é uma ferramenta. Como toda ferramenta, pode ser usada de forma precisa ou de forma indiscriminada. E nos últimos anos, dentro e fora do consultório, tem sido usada com uma frequência que merece reflexão. Isso não é uma crítica à psiquiatria. É uma reflexão que vem de dentro dela.

O que é medicalização e por que ela acontece

Medicalização é o processo pelo qual experiências humanas normais, ou ao menos compreensíveis dentro de um contexto, passam a ser enquadradas como condições médicas que requerem tratamento.

Luto que dura mais do que o esperado vira depressão. Criança agitada em sala de aula vira TDAH. Timidez intensa vira fobia social. Tristeza prolongada vira transtorno depressivo maior.

Em alguns casos, esse enquadramento é correto e o tratamento salva vidas. Em outros, ele transforma sofrimento humano legítimo em diagnóstico prematuro e medicação desnecessária.

Não existe uma linha clara entre os dois cenários. É exatamente por isso que a avaliação clínica cuidadosa importa.

Por que o diagnóstico rápido é tentador para todo mundo

Para o paciente, um diagnóstico oferece algo valioso: um nome para o sofrimento. Nomear alivia. Dá a sensação de que há um caminho. Reduz a autocrítica. Não sou fraco, tenho uma condição.

Para o médico, um diagnóstico permite agir. Prescrever, encaminhar, acompanhar. A medicina foi treinada para fazer algo com o problema apresentado.

Para a indústria farmacêutica, diagnósticos significam mercado. Os gastos mensais com psicofármacos no Brasil cresceram mais de 22% entre 2022 e 2024, muito acima da inflação. Isso não é evidência de piora na saúde mental da população. É evidência de que medicamentos estão sendo prescritos em volume crescente.

O que se perde quando tudo vira diagnóstico

A primeira perda é o contexto. Uma pessoa que perdeu o emprego, está em conflito no casamento e dorme mal há três meses provavelmente está sofrendo de forma compreensível. Isso merece acolhimento, escuta e talvez suporte profissional. Mas o sofrimento não é necessariamente um transtorno, e tratá-lo como tal pode tirar da pessoa a oportunidade de entender o que está acontecendo na sua vida.

A segunda perda é a autonomia. Quando o sofrimento é imediatamente enquadrado como doença, a solução passa a ser externa: o remédio, o especialista, o protocolo. A capacidade da pessoa de lidar com a adversidade, de desenvolver recursos internos, de atravessar dificuldades, fica em segundo plano.

A terceira perda, paradoxalmente, é a credibilidade do diagnóstico quando ele realmente importa. Quando tudo é TDAH, depressão ou ansiedade, fica mais difícil levar a sério quem realmente tem essas condições e precisa de tratamento.

Quando o diagnóstico é necessário e correto

Existe sofrimento que vai além do que qualquer pessoa consegue atravessar sozinha. Existe depressão real, que paralisa e não passa com o tempo. Existe ansiedade que impede de funcionar. Existe TDAH que compromete décadas de vida antes de ser identificado.

Nesses casos, o diagnóstico não é medicalização. É reconhecimento. E o tratamento, incluindo medicação quando indicada, pode ser transformador.

A diferença entre os dois cenários não está no nome do diagnóstico. Está na qualidade da avaliação que o precede. Uma escuta longa, que investiga o contexto de vida, o histórico, o que desencadeou o sofrimento e o que já foi tentado, é o que separa um diagnóstico preciso de um rótulo apressado.

O que esperamos de uma consulta de saúde mental na CCN

A pressa não tem espaço aqui. A consulta de saúde mental na CCN dura mais porque o objetivo é entender a pessoa, não apenas nomear os sintomas.

Às vezes o resultado é um diagnóstico e um plano de tratamento. Às vezes é a compreensão de que o que está acontecendo é uma resposta humana a uma situação difícil, e que o que a pessoa precisa não é de um remédio, mas de apoio para atravessar um período.

Nem sempre o que parece mais rápido é o mais útil. E dizer isso claramente é o que entendemos por medicina honesta.

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Dra. Anna Carolina Willemam é médica com atuação em saúde mental. Atende às quartas-feiras na CCN, Barreto, Niterói.

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