Fumar acalma. Essa é a crença. E do ponto de vista da experiência imediata, faz sentido: a nicotina estimula a liberação de dopamina, produz uma sensação rápida de relaxamento e reduz a tensão por alguns minutos. O problema é o que vem depois.
A armadilha da nicotina na saúde mental
A nicotina é uma substância psicoativa com ciclo de dependência bem documentado. O alívio que o fumante sente não é o cigarro resolvendo o estresse: é o cigarro aliviando os sintomas de abstinência que ele mesmo criou horas antes.
É um ciclo que se fecha sobre si mesmo. O fumante se sente ansioso sem o cigarro, fuma, se sente melhor, e interpreta isso como o cigarro sendo eficaz contra a ansiedade. Na prática, o cigarro é a causa de parte da ansiedade que ele está tratando.
Pesquisas mostram que fumantes têm cerca de duas vezes mais probabilidade de desenvolver ansiedade em comparação a não fumantes, independente de idade, gênero e condição socioeconômica. Entre pacientes tabagistas que buscam tratamento, quase metade apresenta transtornos de ansiedade e mais de um terço tem transtornos depressivos.
A relação bidirecional que ninguém explica
A conexão entre tabagismo e saúde mental funciona nos dois sentidos.
De um lado, pessoas com depressão ou ansiedade têm maior probabilidade de fumar, frequentemente como forma de automedicação. A nicotina oferece alívio imediato e acessível para um sofrimento que muitas vezes não tem diagnóstico nem tratamento.
Do outro lado, o tabagismo crônico altera a química cerebral de formas que aumentam a vulnerabilidade a transtornos de humor. A exposição prolongada à nicotina reduz, com o tempo, a capacidade do cérebro de regular a dopamina de forma independente, criando um déficit que se manifesta como irritabilidade, tristeza e dificuldade de sentir prazer quando o fumante tenta parar.
É por isso que parar de fumar sem suporte de saúde mental tem taxa de recaída tão alta. O problema não é falta de força de vontade. É neurobiologia.
O que acontece com a saúde mental quando a pessoa para de fumar
A boa notícia é que os efeitos se revertem. Não imediatamente, mas de forma consistente.
Nos primeiros dias, é comum que a irritabilidade, a ansiedade e a dificuldade de concentração piorem. Isso é abstinência, não prova de que o cigarro era necessário. É o cérebro se adaptando a funcionar sem a substância.
Em médio prazo, estudos mostram melhora significativa no humor, redução da ansiedade e maior estabilidade emocional em ex-fumantes. A saúde mental melhora. E melhora de forma mais sustentada do que enquanto a pessoa fumava.
Por que a avaliação de saúde mental importa nesse processo
Tentar parar de fumar enquanto há depressão ou ansiedade não tratadas é começar a corrida com uma perna amarrada. O sofrimento emocional que motivou o hábito continua presente e aumenta a chance de recaída.
A avaliação de saúde mental antes ou durante o processo de cessação do tabagismo não é um luxo. É parte do tratamento. Entender o que o cigarro estava fazendo do ponto de vista emocional é o que permite substituí-lo por algo que funcione de verdade.
Na CCN, essa avaliação é feita com escuta e sem julgamento. Fumar não é fraqueza. Querer parar é um passo que merece suporte adequado.
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Dra. Anna Carolina Willemam é médica com atuação em saúde mental. Atende às quartas-feiras na CCN, Barreto, Niterói.
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